O pisado sereno do Duo Mangalô


Contam que quando o EP Fôlego chegou nas plataformas globais de música, durante a pandemia da Covid-19, salvou a saúde mental de muita gente. Escutei isso de pessoas diferentes; e eu, que vi tudo nascer e ouvi repetidas vezes cada canção desde 2021, posso confirmar: parece que esse efeito salvador das almas sedentas por arte, poesia e sertanias está mesmo na própria natureza do Duo Mangalô, formado por Daniel da Quixabeira e Ludmilla Dourado.

Digo isso porque “Inverno quando chega” está no mundo. Um trabalho que pisa sereno na cena da Música Baiana de outras e múltiplas Bahias. Acabou de ser lançada e está disponível em todas as plataformas digitais; na lista de canções pré-selecionadas do Festival de Música Educadora FM; e, a partir de 3 de setembro de 2026, no YouTube como videoclipe financiado pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB/BA). Acho chique!

A canção foi composta por Daniel da Quixabeira em 2024, durante uma experiência de recolhimento espiritual no Ilê Axé Omin Kaiodê, em Juazeiro (BA). É uma composição que se constrói entre memórias, reflexão existencial e referências às sertanias do interior da Bahia.

A partir das suas lembranças da juventude em Capim Grosso, Daniel propõe um inverno além do fenômeno da natureza. Ele convoca silêncios e a introspecção que antecede um processo de renovação. Na metáfora da estação, a música reconhece períodos mais neblinados como parte inevitável dos ciclos da vida que, observados com mais consciência, podem promover avanços importantes.

Lembro bem da primeira vez em que escutei essa cantiga. Daniel puxou o violão, Ludmilla se ajeitou na cadeira, fechou os olhos para cantar e, como diz o povo, “largou o doce”. Nós três ali, naquele quintal ritualístico das artes de encruzilhada que é a casa deles, fizemos uma das primeiras apreciações dessa obra que logo depois seria a próxima escolha do Duo para gravação e lançamento.

QUAL O GÊNERO?

Em se tratando de categoria musical, esse single autoral baiano transita pela MPB contemporânea, pelo Indie, pela música independente e por elementos da música regional, que pode também ser percebida como World Music. Quem olha com atenção para a trajetória de conquistas e notoriedade do forrozeiro Luiz Gonzaga, por exemplo, pode dizer que não existe nada mais mundial do que a identidade regional.

Em termos de referências estéticas e de posicionamento, a música dialoga com o que se tem nomeado por nova mpb, com forte identidade territorial do interior do estado. Um trabalho que flerta com a MPB Contemporânea, Música Independente, Nova MPB, Música Regional e Música Alternativa apenas como referências de posicionamento, sem forçar uma classificação estereotipada ou insuficiente.

A canção articula referências da música brasileira a elementos associados a paisagens sonoras do sertão baiano, sem reduzir o regional a mero ornamento. A composição, pelo contrário, se impõe como espaço de memória e expressão de um modo peculiar de perceber o mundo.

E O FONOGRAMA?

O primeiro fonograma de "Inverno quando chega", lançado em 28 de agosto de 2026, tem 4 minutos e 21 segundos, foi gravado em estéreo, com resolução de 16 bits e taxa de amostragem de 44,1 kHz.

A faixa foi gravada em 98 BPM, andamento que equilibra o caráter contemplativo da letra com o movimento rítmico da canção. Com centro tonal em sol menor, a sonoridade apresenta frequências médias e médio-agudas compatíveis com uma produção que valoriza vozes, instrumentos acústicos e elementos de percussão mais definidos.

Esse trabalho é fruto da produção musical conjunta de Daniel da Quixabeira, Ludmilla Dourado e Kelvin Diniz, que, ao lado de Lore Cerqueira na produção fonográfica, distribui no universo sonoro mundial uma obra autoral que reafirma a força da música independente produzida a partir do interior e dos seus modos próprios de sentir e produzir futuros.

Violão, congas, pandeiro, ganzá, contrabaixo acústico, acordeon e teclados constroem a cama sonora para as vozes de Daniel da Quixabeira, Ludmilla Dourado e Ana Luiza Pankararu dizerem tudo o que desejam, em letra, melodia, timbres e performances.

A participação da artista Ana Luiza Pankararu amplia o diálogo da obra com saberes e cosmologias comuns entre povos indígenas, especialmente sobre a relação indissociável entre as pessoas e a natureza. O encontro dessas vozes aprofunda a dimensão coletiva dessa canção que convida a olhar recolhimento e consciência como recurso para transformações e recomeços.

"Inverno quando chega" é a primeira obra do próximo álbum musical do Duo Mangalô. Ana Luiza Pankararu abre os trabalhos para a participação de outras mulheres cantoras que farão parte desse projeto mais amplo.

MAIS SOBRE A ESTRUTURA SONORA

A música gravada possui uma construção narrativa progressiva, com uma introdução instrumental relativamente extensa, criando um clima de preparação e expectativa. No aspecto da forma da música, a primeira seção apresenta imagens de sereno, solidão, introspecção, alteridade e profundidade. Em seguida, o refrão aparece em par com “Quando a tristeza chegar” e “Quando a alegria voltar”. Essa repetição soa como uma espécie de ensinamento; uma afirmação sábia que vem dos mais velhos; um refrão-mantra.

Na parte intermediária da canção, o “vento” marca a mudança de atmosfera na qual o frio, a madrugada, os nossos muros e o murmúrio gritado ao pé do ouvido vão ampliando a dimensão sensorial da poesia. Na sequência, o refrão volta para consolidar a forma.

Uma terceira seção encabeçada por “o inverno vem é pra mudar” faz o desenvolvimento final com uma atmosfera oracular que sai da observação da tristeza para a promessa do retorno do verão (como metáfora para períodos de alegria e transformação), sem negar feridas ou apressar superação. É um desfecho que mobiliza as emoções para uma transformação consciente, sólida, amante do bem viver e da alegria, que não foge da ferida, pelo contrário, lida com ela.

Depois dessa terceira e última seção, o refrão reaparece até o encerramento, reforçando a ideia da vida em ciclo, uma perspectiva muito presente tanto nessa quanto em outras obras do autor.

QUEM REALIZA?

Esse lançamento musical integra projeto financiado pela Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer da Prefeitura Municipal de Feira de Santana, Bahia, por meio da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), do Ministério da Cultura, Governo Federal.

É uma realização do Coletivo Mangalô, do Diniz Estúdio e do selo Casa das Águas 75, com produção executiva de Ludmilla Dourado. A identidade visual foi desenvolvida pelo artista visual e designer gráfico Ruz; os conteúdos das redes sociais foram produzidos pelo jornalista João França; os registros fotográficos foram feitos por Benedito Pamponet; e a assessoria de comunicação, por Lore Cerqueira.

LETRA DA CANÇÃO

Esse sereno que chega levando a folia embora
Veio dizendo na hora "ninguém é sozinho no mundo"
Nesse momento é que a gente percebe o outro lá fora
É nessa hora que a gente repara um poço profundo

Quando a tristeza chegar
Vai preparando teu peito
Quando a alegria voltar
ela vem revirar teu jeito

Quando a tristeza chegar
Vai preparando teu peito
Quando a alegria voltar
ela vem revirar teu jeito

Vento que esfria a espinha do corpo pela madrugada
Joga na cara da gente o tamanho que tem nossos muros
Inverno frio que derrama na rua os segredos de agora
É tanto murmuro que grita na esquina no pé do ouvido

Quando a tristeza chegar
Vai preparando teu peito
Quando a alegria voltar
ela vem revirar o teu jeito

Quando a tristeza chegar
Vai preparando teu peito
Quando a alegria voltar
ela vem revirar o teu jeito

O inverno vem é pra mudar, menino
Pra teu verão poder voltar, sorrino
É nessa hora que o olho repara no outro, o Outono
É nessa hora que a gente percebe a ferida sentino...

Quando a tristeza chegar
Vai preparando teu peito
Quando a alegria voltar
ela vem revirar o teu jeito

Quando a tristeza chegar
Vai preparando teu peito
Quando a alegria voltar
ela vem revirar o teu jeito.


OUTRAS OBRAS DO DUO MANGALÔ

EP Fôlego
https://open.spotify.com/album/1WWufqt6ROVwaO0iMIokS8?si=51xIm3CsSOGUjI5QZqoGHQ&utm_source=copy-link

Fragmento audiovisual do espetáculo cênico Corpo Palavra, com direção de Antônia Lyara, em homenagem ao Duo Mangalô.
https://www.youtube.com/watch?v=G_R4mpnCgrI



Por Lore Cerqueira
Publicação 02.09.2026