Professor da Uefs com neurodivergência conclui segundo doutorado em música
Concluir o segundo doutorado marcou para o professor Natan Ourives, do Departamento de Letras e Artes da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), mais do que uma conquista acadêmica: tornou-se o ponto simbólico de uma trajetória atravessada por barreiras estruturais, estigmas e um diagnóstico tardio de autismo.
Graduado em Composição e Regência pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), o docente enfrentou, no início da vida acadêmica, dificuldades financeiras e a ausência de acessibilidade pedagógica, fatores que culminaram na interrupção dos estudos em mais de uma ocasião.
Diagnosticado aos 41 anos com Transtorno do Espectro Autista (TEA), nível 1 de suporte, Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e Altas Habilidades, o professor avalia que a chamada dupla excepcionalidade dificultou o reconhecimento de sua condição. “É preciso ressaltar que ter a dupla excepcionalidade, ou seja, altas habilidades associadas ao TEA, principalmente no meu caso, nível 1, torna o diagnóstico mais difícil, uma vez que uma condição mascara a outra”, afirmou.
Ao destacar a importância do acolhimento à neurodiversidade e do cuidado com a saúde mental no ambiente universitário, o docente ressalta como essa compreensão orienta sua prática pedagógica. “Eu nunca parto da ideia de que a turma é homogênea. Cada estudante chega com sua própria história, seus contextos e dificuldades, e meu papel como professor é abrir o método, flexibilizar o percurso e acolher essas diferenças. Avalio cada aluno pela sua própria evolução, não pela comparação com os outros. Ensinar, para mim, é ouvir, ajustar e criar caminhos inclusivos para que todos possam aprender”, destacou.
Música e neurodivergência
Intitulado “O Estado da Arte da Educação Musical de pessoas com deficiência intelectual e comorbidades no Brasil (1975–2024): a proposta do Observatório Colaborativo Digital Ossaim e do Software de Apoio ao Pesquisador Baseado em Inteligência Artificial Onisewe”, o segundo doutorado do professor analisa processos de ensino e aprendizagem musical voltados a crianças neurodivergentes e com deficiência intelectual, especialmente aquelas com síndromes raras, TEA em diferentes níveis e variadas necessidades de suporte.
A pesquisa articula metodologias inclusivas, o desenvolvimento do chamado “tempo individual” na música, estratégias que respeitam ritmos próprios e o papel da mediação pedagógica, estabelecendo diálogo entre educação musical, psicologia, neurologia, psicopedagogia e estudos da deficiência.
Ao longo da prática de campo, o docente desenvolveu e testou métodos pedagógicos capazes de incluir crianças frequentemente excluídas da educação musical tradicional — propostas que se contrapõem à rigidez de repertórios, à noção de “tempo social” musical e a práticas escolares pouco preparadas para lidar com a diversidade.
Neurodiversidade no campus
Atualmente, segundo dados do Núcleo de Acessibilidade da Uefs (NAU), estão cadastrados 81 estudantes neurodivergentes na universidade. Desse total, um possui laudo de altas habilidades e 28 são pessoas com TEA, sendo três com TEA associado às altas habilidades. O Núcleo informa, no entanto, que há conhecimento informal de outros discentes que ainda não buscaram atendimento institucional.
Entre as ações desenvolvidas pelo NAU estão a mediação com colegiados, articulação com o NAAP e a UNINFRA, reuniões com docentes, orientações para adaptações necessárias, oferta de monitor apoiador, adaptação de materiais, Atendimento Educacional Especializado (AEE), elaboração de Plano Educacional Individualizado (PEI), além da escuta e do acolhimento das demandas dos estudantes e de suas famílias.
UEFS
Por Larissa Rocha
Foto: Edvan Barbosa